tag:blogger.com,1999:blog-30527718631236673652013-04-23T11:59:26.115-07:00Folha - I - Assinatura: Fernando OliveiraFernando Oliveira “ entre a obediência e a imposição existe um espaço de liberdade, é lá que eu moro “ feroolfernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.comBlogger49125tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-63309144114606311412012-05-05T23:29:00.000-07:002012-04-05T09:05:03.815-07:00Entre o sol e a lua - o insofismável dualismoCaiu tanto sol na terra<br />caiu tanto fogo no mar<br />que este se evaporou<br />e aquela se rasgou.<br />E os rios ficaram córregos<br />e os córregos ficaram canadas de saudade<br />e as rias fugiram da praia<br />e os navegantes cultivaram o campo<br />procurando a cópia do mar<br />que tinha desertado o vale.<br /><br />Depois o sol desmaiou<br />e foi a vez da lua aparecer<br />matreira e gordinha <br />compassiva e chorona. <br /><br />Gemeu tanto<br />que encheu o céu com um cueiro de novidades aflitas<br />que caíram nas raízes secas<br />que acordaram as folhas mortas<br />que pingaram na terra morna.<br /><br />E as gretas da terra se fecharam<br />os rios de novo cantaram<br />e o mar de novo cresceu.<br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-36669563085037864702010-04-24T21:01:00.001-07:002010-04-24T21:01:29.893-07:00O presente é dia de descansoO passado não pode ser descurado<br />Não para nele viver - é passado<br />Mas para procurar as linhas do futuro<br />E tecer cordas que nos façam galgar o muro.<br /><br />As dívidas são todas do passado<br />Os lucros são todos do futuro.<br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-13101101648464517302010-04-10T22:32:00.000-07:002010-04-10T22:32:27.960-07:00Tela que ainda não pinteiTodas as rosas não eram mais rosas que a tua face<br />Todos os lírios não eram mais amenos que a tua íris<br />Todas as árvores não eram mais garbosas que as tuas pernas<br />E as montanhas asseadas não igualavam os teu seios.<br /><br />Nunca te penteaste <br />Deixavas que o mar o fizesse<br />Nem te lavavas <br />Deixavas que o rio te afogasse<br />Num rito acróstico que a corrente ameigava<br />Dos cabelos flor-de-viúva <br />Até às unhas dos pés.<br /><br />Todos os adjectivos pintavam o teu retrato<br />E os seixos que cursavam o teu rumo <br />Contavam o macio de passos descalços<br />Aquele andar entre o perro e a andorinha<br />Na mata onde ninguém descansa.<br /><br />Descansaste na rama cheia de pinha <br />Eras pomba mansa e fêmea brava<br />Agora nem sequer és semente. <br /><br />Disse-te um dia que não morresses<br />Antes de chegares à foz<br />Tão perto estavas da nascente<br />Tão bem estavas entre nós.<br /><br />E agora teimosa e insolente criatura <br />Mudo esqueleto num campo com cintura<br />Todos te choram e eu não choro<br />Já disse adeus a muita gente<br />Mas a ti nunca direi.<br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-56111864939263955932010-04-09T00:53:00.001-07:002010-04-09T00:53:27.462-07:00Entre as fraldas e o sudárioÉ agora que o grito soa<br />que a imagem para a saudade voa.<br /><br />Correm lágrimas do berço para o cemitério<br />cessou o mistério.<br /><br />Era antes um ser alguém<br />um rico déspota um Zé ninguém.<br /><br />Uma pomba branca um chasco azougado<br />um mestiço fragoso que agora deitado.<br /><br />Moureja a terra sem ar e sem luz<br />germina o esqueleto que não mais seduz.<br /><br />E o grito maltratado que agora morna<br />jaz na saudade a única forma.<br /><br />De abafar o mio da caducidade<br />o homem não faz falta à cidade.<br /><br />Relatam os sábios que ele é pinga<br />como a chuva que cessa e respinga.<br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-82366585229994218882010-04-08T23:16:00.000-07:002010-04-08T23:16:03.298-07:00A vós me confessoVós ais que me arrasais<br />no ouvido que já não tenho<br />porque já sou lenho<br />não glosais.<br /><br />Venho de outros climas<br />de caretas de Carnavais<br />onde risos eram frimas<br />e os sítios arraiais.<br /><br />Nesse tempo era audaz<br />como a água do regato<br />diziam que bom rapaz<br />no gesto e bom retrato<br /><br />E nunca falhava um facto <br />ribeirinho com sinais<br />no templo bisava o acto<br />no campo moldava ais.<br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-72497633270173320862010-04-08T21:19:00.001-07:002010-04-08T21:19:49.155-07:00Depois mais nadaMorto nos beiços que não são lábios<br />era um beijo frio como o sargaço<br />longínquo como o erro dos sábios<br />circunspecto como a queima do aço.<br /><br />Era um convir acoito que o véu obriga<br />pedaço de nada com resto de haveres<br />abraço tão lasso que a mão castiga<br />corpos divisos na folha de deveres.<br /><br />Era haja que não havia no momento<br />engenho esquecido no matagal da sorte<br />conjuntura deposta na soma do tempo<br />selo de carinho com vestígio de morte. <br /><br />Morto nos olhos que ninguém visita<br />o resigno duma alma e mais uma<br />duas sem uma e nenhuma que grita<br />um beijo de dor que suprime a suma. <br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-56278049275502984892010-04-07T22:37:00.001-07:002010-04-07T22:37:27.539-07:00Nas trevas o voo é contingenteÉ tarde...<br /><br />As luzes já dormem e o incauto<br />no fundo do bosque<br />desorientado e vencido<br />murcha no ar. <br /><br />As ervas assobiam o nome<br />que dele voa como o vento do baptismo.<br /><br />Enquanto as luzes continuam mortas<br />nutre-se da escuridão<br />dum paredão de barro<br />que o encerra<br />o curva <br />e o colhe<br />como um floreio<br />desterrado<br />no poço dum sol extinto.<br /><br />Talvez não...<br /><br />A aflição chegou ao âmago das flores silvestres<br />aflitas do soo da loucura.<br />Nos últimos instantes da negrura<br />reúnem-se na rossio da aurora.<br /><br />Chorando todo o bálsamo no corpo gasto<br />lágrimas florentinas e alvorada <br />que fazem renascer o abelhão. <br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-8929451772901942192010-03-31T19:51:00.001-07:002010-03-31T19:51:22.027-07:00A caneta não é minha é tuaNa escrita muita gente estrebucha<br />Alguns suam para subir a ladeira<br />E meia dúzia se instala no cume<br /><br />Alguns utilizam uma doce chucha <br />Outros trabalham por brincadeira<br />E os demais adormecem no ciúme<br /><br />Entre a estrebucharia e a falcatrua<br />Existem dois dedos de rivalidade<br />Aqueles que folheiam o chumaço <br /><br />De obras doutros que queriam sua<br />Expostas nas livrarias da cidade<br />Esbatidas na luz morta de cansaço<br /><br />Se a escrita corre antes que se desfaça<br />Entre o estrebucho e a ensoberbeceria<br />Levanta-te e anda escreve com raça<br /><br />É na dificuldade que a letra engraça<br />Na pluma do doutor ou da tia Maria<br />Se houver lume haverá sempre fumaça.<br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-64245205763503155482010-03-28T19:10:00.000-07:002010-03-28T19:10:22.229-07:00Só a mão nutre a vidaDizem que é a mão que tem pena<br />pois é adornada de cútis perita.<br />Que a energia é apenas a cena<br />dum volume que cala ou grita.<br /><br />E que quando o coração desmaia<br />a mão apalpa para segurar a guita.<br />Da novela para que não caia<br />no poço da inteligência aflita.<br /><br />Dizem que é mão que fecha a brochura<br />quando o pulmão não mais lê o ar.<br />Que agarra o pulso e diz com secura<br />é tempo de ir sossegar.<br /><br />Dizem que o cérebro nada tem a pensar<br />ele só concebe porque a mão manobra.<br />E se esta não tem mais trecho a folhear<br />fecha o cartório onde acaba a obra.<br /><br />Que pena reina na nossa mão<br />que afaga o peito e o cesto da memória.<br />Pedindo aos dois a concessão<br />de morrer logo que acabe a estória.<br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-84995567779748290362010-03-02T14:52:00.000-08:002010-03-02T14:55:24.591-08:00A maldita Barca de Caronte<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"><a href="http://2.bp.blogspot.com/_YmWtdGhM0mU/S42WdbH1DFI/AAAAAAAAA2I/gaZrz97rgOM/s1600-h/BarcaCaronte.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"><img border="0" height="320" kt="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_YmWtdGhM0mU/S42WdbH1DFI/AAAAAAAAA2I/gaZrz97rgOM/s320/BarcaCaronte.jpg" width="316" /></a></div><br />Quando o homem navega com os olhos classificados<br />E abandona a fonte para arrumar a norma do patriotismo<br />Quando ele exerce a razão do conjunto e morre sozinho<br />A morte é só dele. Os outros que se cuidem e defendam <br />Haverá sempre uma intriga na estrada por mais lisa que seja.<br /><br />Uma ira do caos que lhes entra no tímpano até mais não ouvirem.<br /><br />Era aquela barquinha velha com panos gentis de genealogia <br />Que flutuava em riachos de água instintiva com sotaques de rã<br />Na aldeia fresca e severa com arraiais de frialdade no caminho<br />Na urbe recenseada com vestígios mas nenhum de armistício.<br /><br />O jovem amava-se como um Eneias de virgem heroicidade. <br /><br />No exílio de frente calorenta além tão além que a vida se caduca<br />Num cálice de liquido vermelho servido como última imagem<br />Cessam os brados de valentia e no passaporte aparece o nome antigo<br />Finou-se a juventude antes do colossal abraço de antologia.<br /><br />Oh barqueiro incorrecto monetário e traiçoeiro. Oh pátria sem luz<br />Que rio me deste. Tanta alegria tinha no meu fóssil córrego<br />Oh guia maldito que velejas a minha última dor até á foz do inferno<br />Rio de desventura que te fez eu para me subtraíres o espírito. <br /><br />Viajarei contigo asqueroso Caronte. Deixa-me saudar os amigos<br />Levas-me para o infortúnio nestas águas infaustas e bárbaras <br />Não vejo mais margens barqueiro nem folhas mortas do Outono<br />Não tenho rumo mas ainda sinto o cheiro do pranto do Vesúvio<br />Depõe-me nos seus pés e te trai Sibila te dará o ramo de ouro.<br /><br />Caronte ouvia os protestos do mancebo com roupa de cruzada<br />De beiços tão graves e boca tão gentil como a neve do Olimpo <br />Perdeu a vigilância e derivou até encalhar numa ilha inocente<br />E nunca mais voltou a transportar indefinidos mortos ilegítimos<br />Segundo a lenda ainda vive resgatando vitimas de guerras ilegais.<br /><br />Fernando Oliveira<br /><br />Tela do pintor Júlio Santos, realizada para o poema.fernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-18615448921541284832010-02-28T19:40:00.001-08:002010-02-28T19:40:46.901-08:00Quando as musas me dão a mãoAs musas eu as colho num campo tão vasto<br />Que a minha ideia não tem juízo da dimensão<br />É a graça que orna o penteado duma donzela<br />Um peito tão belo que nem precisa de coração<br />Um rosto cândido por detrás duma tímida janela<br />Ou uma criança foliando com o gado no pasto.<br /><br />E se a amável Herato desenha uma bela cena<br />Com a pequena lira onde Caliope capta a voz<br />Não escondo que me inspiro da luz que chiava<br />Nas vielas que admitiam o canto dos meus avós<br />Clio com o pulmão aberto soprava e declamava<br />E a cidade era tão bêbeda provocante e morena<br /><br />Que Terpsícore com a sua dança estonteante<br />Rodopiando até ao cais da volúpia – Euterpe<br />Flauteando comovida com a minha erudição<br />Melpomene descendo comigo vestida de crepe<br />Até ao rio onde todas as musas me davam a mão<br />Tália germinava flores Polímnia era cantante. <br /><br />Urânia levou-me para a excelsa inspiração.<br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-89654153568392209872010-02-24T21:02:00.000-08:002010-02-24T21:24:31.932-08:00Conjunções<div align="left" class="separator" style="clear: both; text-align: center;"><a href="http://4.bp.blogspot.com/_YmWtdGhM0mU/S4YD3KnHApI/AAAAAAAAA2A/VFn-caHzNYk/s1600-h/cav.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"><img border="0" height="150" kt="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_YmWtdGhM0mU/S4YD3KnHApI/AAAAAAAAA2A/VFn-caHzNYk/s200/cav.jpg" width="200" /></a></div><br />A mão é um indiviso excelso<br />conveniente <br />e talvez ingénuo<br />que manipula até o fim dos dedos<br />as cores da manifestação<br />na primeira ocorrência do parto.<br /><br />Um tempo extraído do intuito abortado<br />nos riscos dum arquitecto.<br />no planalto do esquema. <br /><br />O tecelão<br />espreme o ovo-sol que vai pigmentar a água fóssil<br />dando-lhe o rubor do brio<br />e a acção do caldo forte.<br /><br />Os equídeos perplexos esperam o primeiro baptismo<br />com a serenidade do cepticismo<br /><br />O estrelado sol-ovo que goteja apenas a intenção<br />do peito da mão - mão-peito<br />até ao primeiro serão.<br /><br />E a água que se evapora<br />para alcançar a palma-mão<br />antes do segredo da égua. <br /><br />O primeiro <br />relincho da&nbsp;conjunção. <br /><br />Fernando Oliveira<br /><br />Tela de Júlio Santos ( Portugal )fernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-66175826596098344002010-02-22T10:06:00.001-08:002010-02-22T10:06:29.076-08:00Árvore de quatro estaçõesEm pleno convénio com a primavera<br />se os galhos se enchem de folhas viçosas <br />a árvore germina flores de quimera<br />e a raiz colhe no musgo águas ditosas.<br /><br />No fim do verão a árvore estremece<br />e o vento outonal que a faz mexer<br />acaricia a folha idosa que já não tece<br />a essência da seiva que a fez viver.<br /><br />Enquanto a folha tosca amarelece<br />e se prepara para voar e falecer<br />o fruto adulto exulta e amadurece<br />doando ao pássaro a semente do prazer.<br /><br />No Inverno silvestre o solo fabrica<br />o preparo para nova e desejada era<br />enquanto a árvore nua pousa e fica<br />lendo o pacto da próxima primavera. <br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-84771256487769822062010-02-21T18:41:00.000-08:002010-02-21T18:41:03.037-08:00O espelho da florSe existisse uma só - e única flor<br />que fosse cor-de-rosa ou bem-me-quer.<br />Vivesse unicamente - para dar amor<br />como a margarida feita mulher. <br /><br />Entre o germinar e a copiosa vida.<br /><br />Se fosse apetecida pela sua cor<br />do brotar do sol - até à meia-luz.<br />No murchar argênteo - até ao rubor<br />aromatizando a meiguice que produz.<br /><br />A língua gorda como o ego da orquídea.<br /><br />Se fosse a única flor que o sol redobra<br />no piso árido - duma missa solitária.<br />Choraria apenas pela água que não sobra<br />e que não a leva à suma pia candelária.<br /><br />Onde casaria com a própria foz florida. <br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-87877644220379349642010-02-04T19:15:00.001-08:002010-02-04T19:15:09.811-08:00Eu e eu!...Hoje saudei-me e abracei-me<br />duma maneira quase narcísica. <br />Falei-me e escutei-me<br />duma maneira quase feliz.<br /><br />Depois despedi-me de mim<br />prometendo-me que voltaria.<br />Ou se não me revisse <br />me escreveria.<br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-86021420261870519942010-01-27T19:51:00.001-08:002010-01-27T19:51:24.047-08:00Toma lá e dá cá.No lugar duma gota <br />te darei uma fonte.<br />E se for pouco <br />te darei um rio.<br /><br />No lugar da brisa <br />te darei a causa.<br />E se for pouco <br />te darei o rebuliço.<br /><br />No lugar da faúlha <br />te darei o aviso de fogo.<br />E se for pouco<br />te darei o vulcão.<br /><br />De ti!...<br /><br />Só peço a água que sobra da tua sede.<br />O sopro da tua respiração.<br />E uns lábios agitados faiscando paixão.<br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-6593936087522694602010-01-19T19:46:00.000-08:002010-01-19T19:46:31.771-08:00Inferência ao equívocoViste esposa, a saia que aquela tem<br />A blusa que sustenta - com alça<br />O porte que mais parece uma dança<br />Anda p’ra mim e p’ra mais ninguém!<br /><br />Viste a touca que lhe cobre os cabelos<br />O sustentáculo dos seus peitos brancos<br />A arquitectura dos seus ombros francos<br />Que bamboleiem como barcos rabelos.<br /><br />Viste nos dedos, a marca da saudade<br />Um anel de linho que rompe dia-a-dia<br />Uma antologia dissolvida sem piedade.<br /><br />Proferes que viste, porque te referia<br />E eu tampouco descrevo a verdade<br />A mulher que mostro, é só todavia.<br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-64387253800033341342010-01-16T20:43:00.000-08:002010-01-16T20:43:04.899-08:00As veias do destinoFoste tu, <br />que te afogaste na água amável? <br />Ou eu, <br />já submerso que te chamei?<br /><br />Tu vieste; e eu estremeci.<br />Depois<br />nada mais soube.<br /><br />Talvez ainda vivas no meu espelho,<br />talvez não tenha morrido <br />dentro do teu.<br /><br />Naquela acção análoga e induzida.<br />Uma mão que puxa<br />uma mão que pede.<br /><br />Borboletas de asas azuis circunscritas <br />olham agora o mesmo céu.<br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-47551289819544358832009-12-14T19:14:00.000-08:002009-12-14T19:14:10.182-08:00E da pedra!...“Não há mãe mais prolífica <br />do que a pedra.<br />Não há pai mais generoso<br />do que o mar. “<br /><br />A areia é filha de ambos<br />e pertence ao reino - Areal.<br /><br />O areeiro - é o povo mais unido da terra<br />porque não tem pátria <br />hino <br />nem bandeira.<br /><br />Não tem pontas nem miolo.<br /><br />É um povo hermafrodita<br />que respeita o pai e a mãe<br />de tal maneira<br />que de filhos!... <br /><br />Não tem filhos.<br /><br />Mas elege todos os filhos que saíram do mar<br />e da pedra.<br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-12166963851770401362009-12-07T08:17:00.001-08:002009-12-07T08:17:49.901-08:00O peso da gravidadeApalpei a terra em todos os recantos<br />E ela era dura.<br />Deslizei em mares e rios<br />E eles eram duros.<br />Olhei para um espelho<br />E ele era oco.<br />Por detrás de mim<br />Camponeses moldavam a terra<br />Pescadores colhiam nas águas.<br />Uma borboleta pousou nos meus ombros<br />E ela era leve.<br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-58846374780303272762009-11-14T20:15:00.001-08:002009-11-14T20:15:49.620-08:00Noite estúpida(9 de Novembro de 1938)<br /><br />Eram tempos de vidros frágeis <br />e de pedras fortes.<br /><br />O vento soprava em todas as direcções.<br />Não era um agora robusto.<br /><br />A ideia pode ter brotado duma primavera<br />desfalcada na raiz<br />duma árvore entontecida no capricho de ventos passados.<br /><br />Ventos que invadiram o arpoador de vidro dos judeus. <br /><br />As cornetas tinham mudado de direcção<br />e os algozes crescidos em ramalhetes indistintos<br />jogavam xadrez com cavalos de cristal<br />e venciam os reis de areia.<br /><br />Naquele hoje de espelhos artísticos<br />e chapéus mais altos que o cume de referência.<br /><br />Fascistas e republicanos prendiam fulgores nos palácios dos vizinhos.<br />Ninguém sabia qual raça exterminar. <br /> <br />E Deus do alto da sua alegórica democracia.<br /><br />Não sabia aplaudir<br />nem assobiar.<br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-48530519491136266232009-10-29T11:28:00.000-07:002009-10-29T11:28:00.011-07:00A sensualidade da noiteA ebriedade da noite escalda o peito<br />no fim do dia impúdico.<br /><br />Flutua no ar entusiástico um inferno cobiçoso<br />vindo directo da caldeira do astro-rei<br />A silhueta esgueira-se felina por entre as cortinas de cetim<br />soprando unguento de jasmim.<br /><br />O tempo evapora-se no porquê<br />da dança ebúrnea e febre<br />da sombra com pele de musselina. <br /><br />E assim nasce o propósito. <br /><br />Os peitos crescem até ao cio<br />para amamentar as estrelas<br />antes de caírem <br />no estuário do quebranto.<br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-22334277813438176232009-10-17T20:25:00.001-07:002009-10-17T20:25:19.252-07:00SaudadeOs filamentos da saudade atravessam os tempos<br />os espaços e as muralhas das convenções sociais.<br />São bússolas gravadas num dó em contratempos<br />enrolados na tirania de quietos novelos anais. <br /><br />São tripas que agitam o pensamento que acorda<br />a nostalgia morta de entre o urdo dos destroços.<br />A traslação das imagens que dum eu transborda<br />até à latitude de então que abre brios e remorsos. <br /><br />É a música de outrora que por um tempo regurgita<br />através das dimensões dum destino arquitectado<br />nas orlas mais profundas dum juízo que se agita.<br /><br />E se desprende na leitura intercalar da fita<br />enevoando a representação do existente fado <br />com dó ou com agrado a trama remota grita.<br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com2tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-580742860564613612009-10-14T09:31:00.001-07:002009-10-14T09:31:29.341-07:00Águas esquivasSempre tive um mar ao lado; e não o via<br />uma foz d’água verde que me banhava.<br />Nunca achei no litoral que m’apresava<br />o mergulho do oceano que não queria<br /><br />Equivoquei o leme da minha intuição<br />brincando com a água como se fora um lago.<br />Amei na areia, algum peitilho amargo<br />extinto nas fragas dum bravo paredão<br /><br />E o mar que não via, crescia, anoitecia,<br />amanhecia sempre, depois de morrer.<br />Então que eu, ainda eu: nada percebia<br /><br />Nada ocorria, tudo era saldo e morria<br />em mim, no lago; e no falso querer.<br />Na água verde que era mar; e eu não sabia.<br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com2tag:blogger.com,1999:blog-3052771863123667365.post-41111965425150638132009-09-01T23:18:00.000-07:002009-09-01T23:20:24.070-07:00MetáforaEu sou Deus<br />a pátria e o montão<br />o pão e a faca.<br /><br />Eu sou a gema...<br />a síntese do universo.<br /><br />Sem mim!<br />não há cadafalsos<br />e a natureza chora no vazio.<br /><br />Eu sou a loucura do barão.<br /><br />Aquele apólogo <br />que se ideia pássaro <br />duma vida aquilina<br />e sufoca no aprumo da evolução.<br /><br />Eu sou. Por mais não poder ser!.<br />O impulso.<br />A ideia da água que se estende na terra. <br /><br />Tanta água <br />que exsudo e transudo,<br />como o vapor que sai da fonte e se abeira da areia.<br /><br />Uma areia que não crê no mar!...<br /><br />Então,<br />me abeiro da praia <br />e o cheiro do limo que me une no pé-de-vento do apego<br />da maresia.<br />Usufrui de mim e me chama.<br /><br />Me subtrai à terra<br />me inunda e me ceifa.<br /><br />Um grito selvagem ecoa no universo!...<br /><br />Morreu Deus, o montão e a pátria.<br />Fechem o capitulo da evolução.<br />Já não há dentes para o pão.<br />Cravem a faca na terra. <br /><br />Fernando Oliveirafernando oliveirahttp://www.blogger.com/profile/11528889551883257501noreply@blogger.com2